Dirceu, Ary Toledo e os Jacarés Empalhados

O “Blog do Zé (Dirceu)” é como um show de Ary Toledo: cômico e sujo. Até aí, nada de mais; nada de inaudito ou surpreendente. Todos sabem que qualquer coisa que diga respeito ao petistíssimo ex-terrorista e atual réu do easy-case “Mensalão” (fatos, aliás, obviamente omitidos na seção “Quem é José Dirceu”) não pode fugir muito desses dois adjetivos.

Mas a sujeira e a comicidade – viemos nós a saber e acabamos comprovando – recrudesceram a tal ponto que os vocábulos são já impróprios para o contexto em que se aplicam. Hoje, imundície e hilaridade são conceitos mais fiéis e afinados com Zezão e seu blog.

A podridão é facilmente farejada. Dirceu, em “seus” (leia-se, de seus acessores, já que alfabetização do político não nos soa de modo algum um fato líquido e certo) últimos artigos,  está de birra. Mais uma vez, é claro, leviana birra.

O petista, trinta anos depois de coadunar com grupos criminosos que “guerrilhavam” contra a ditabranda na tentaviva de instaurar um regime totalitário (não, caros, eles nunca lutaram pela democracia ou por nada que com ela se assemelhe) de esquerda no Brasil, agora pega em outras armas, destinadas a destruir a imprensa e seu papel fiscalizador do Poder. Dessa vez seus alvos, que o sujeito não tem sequer a vergonha de esconder ou maquiar, são os movimentos recentes contra a corrupção. É isso mesmo. Afinal Dirceu, corporativista que é e sempre foi, defende seus interesses. Marcha contra a corrupção, por evidente, torce o nariz de qualquer sindicalófilo.

No caso, a vítima foi o jornal “O Estado de São Paulo”. Vejamos trecho de “mídia distorce minha posição sobre as marchas contra a corrupção”, na íntegra: http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=13805&Itemid=2.

“Um dos editoriais de hoje e várias reportagens recentes do jornal O Estado de São Paulo escondem ou deturpam o que eu digo. Minhas críticas não são às manifestações contra a corrupção, mas ao fato de o Estadão e a mídia em geral as estimularem e as apresentarem como campanhas contra o governo.  Isso já foi feito no passado quando apoiaram a UDN e o janismo – a eleição do ex-presidente Janio Quadros – o golpe de 1964 e a eleição de Fernando Collor de Mello, apresentado pela mídia como “Caçador de Marajás”. Tudo sob o pretexto de combater a imoralidade pública.

Pobre Zé; pobre PT. O Estadão, opressor, faz as marchas contra a corrupção voltarem-se contra os probres coitados. Ocorre que o fanfarrão, além de mentir – já que o Estadão não operou a atitude acusada (que, se fatídica, seria por si só louvável, diga-se de passagem) – é negligente com as próprias idéias e descuidadoso com a coerência: esqueceu-se, mui convenientemente, de que a “corrupção” não se faz sem os “corruptos.” Atacar aquela, é claro, é algo que imprescindivelmente se faz atacando estes.

O petralha-mor, esperto e artista que é, quer separar o joio do joio, tarefa digna de Sísifo.

Muito bem, venhamos a algumas considerações.

Primeiramente, fica claro que Dirceu não raciocina.
Qualquer ação voluntária (como a corrupção) pressupõe, necessariamente, uma vontade; toda vontade, por sua vez, imprescinde de um sujeito. Galgando os mesmos silogismos aí impícitos, fica evidente que  “ser contra”, ou agir belicosamente àquela mesma ação, é fazer guerra contra aquela mesma vontade e, em última consequência, contra sua própria força emanadora – ou seja, contra o sujeito ator.

Mas para que Zezão não se perca em meio a nossa (simplória, admitimos) construção lógica , sumá-la-emos e adptá-la-emos ao caso contreto, bem como ao intelecto dele, que dolosamente insiste em negá-la: combate-se a corrupção, necessária (e talvez suficientemente), combatendo-se os corruptos.

Além disso, a terminologia empregada na proposital ignorância de Dirceu denota ainda outra coisa: o ex-quase-tudo, para espanto geral, não conhece nenhum conceito, nenhuma acepção do que venha a ser, afinal, o motivo, o sonho dourado, o alfa e o ômega de sua própria vida: o “governo”.  Mas, novamente, como a informação é direito de todos, e divulgá-la é honroso e altruísta, mais uma vez iluminaremos o (até ele filho de Deus) ex-pistoleiro: o termo “governo” tem três acepções de maior relevância. A primeira, e mais vulgar, identifica-o com o próprio Estado; a segunda, cintilante em “Do Contrato Social”, de J.J. Rousseau, toma governo como algo próximo do conjunto de forças que opera o Estado em determinado espaço de tempo – o governo “ocupa” o Estado; há, ainda, a acepção mais moderna do termo, grifada por Norberto Bobbio em “Estado, Governo e Sociedade”, de matiz anglófona, de government, agora entendido como o hodierno Executivo em seu ímpeto de irrefreável hipertrofia em detrimento do Poder Legislativo cameral, ou parlamentar, ou representativo.

Notemos bem: em qualquer das três acepções, o alvo (o pobre-coitado “governo” de Dirceu) dos movimentos contra a corrupção continuaria igualmente legítimo. Seria, somente, mais ou menos eficiente, dependendo do âmbito de abrangência do movimento. Tudo, então, cristaliniza-se: Dirceu faz manha porque a imprensa quer voltar as atenções da louvável atitude sediciosa popular contra os atores da instituição (os corruptos), e não contra a própria instituição (a corrupção), sempre intangível, difícil de definir e tanto mais de combater.

O “articulista” olvida o fato de que os motivos, princípios e objetivos do movimento permanecem imaculados (e portanto remanecem justos) se operada tal mudança de ponto de vista sobre o mesmo objeto. Issodeveria ser a coisa mais óbvia do mundo.

Isso posto, o que realmente importa para esclarecermos o absurdo das reclamações que acusamos é fazer as seguintes indagações, idealmente dirigidas ao próprio Dirceu num encontro no meio da rua: quem são os “atores”, e quem compõe o dito “governo” sacrossanto – que nada deveria ter, a ver com os movimentos moralizantes recentes, como disse Zezão? De qual das três acepções de “governo” Dirceu fala? Seria do Estado em si? Do PT? Ou seria da gigantesca burocracia do Executivo (adorada e fomentada, aliás, pelo partido?) Dirceu, afinal, se refere à etiquíssima tradição estatal brasileira? Ou será que dialoga apenas com os seis ministros pegos de calças curtas em onze meses do “novo” governo petista? Ou será que, diferentemente, alude à totalidade do corpo administrativo – do ministro de Estado ao chefe de almoxarifado de repartição pública – todos flertantes inveterados dos recibos dilatados e dos favorezinhos a boca-miúda?

Pergunta-se, assim, não sem grande inquietude: que governo, Sr. Dirceu? E, escolhida uma das três acepções, qual seria a razão de a opinião pública não poder direcionar o movimento contra a corrupção contra este ou aquele “governo”, se até um jacaré empalhado sabe que é do governo que vem a massiva maioria da podridão política brasileira?

Jacarés empalhados, aliás, somos todos nós. Ou melhor, menos ainda que isso. Eles, ao menos, entupidos de verniz e pregados em suportes de madeira, não podem teimar em eleger a  laia de réus (and companny) acusados de corrupção que, não obstante, têm suficiente cara de pau para criticar publicamente os que a denunciam, e os que (sim) querem combater direta e concretamente seus feitores.

Sim, Dirceu tem a força. Só não sabíamos que ele era tão genial a ponto de, como articulista e político “profissional”, atacar pública e impunemente aqueles que degladiamos a corrupção ou os corruptos – e aqui tanto faz, ou tanto deveria fazer.

Mas sim, anuiremos: Dirceu é genial; é, como político, tão brilhante quanto Palocci – o milagreiro da multiplicação dos patrimônios – é como empresário.

E dá-lhe verniz.

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