O Ópio de Frankfurt e a USP

Para Karl Marx, “a religião é o ópio da humanidade”. Para Raymond Aron, o marxismo é o ópio dos intelectuais. Para esses que vos escrevem, porém, a maior droga alienadora da comunidade acadêmica da Universidade de São Paulo é a sua própria – e abissal – carência de opiniões formadas.

Explicaremos.

Vivemos na época das imagens, na qual o “parecer” ganhou maior relevância em detrimento do “ser”. No palco do cotidiano, lê-se determinada revista para se mostrar atualizado. Aplaudem-se – de pé – determinados discursos para serem vistos intelectuais. Abstém-se de opinião formada para ser aceito. É a pura constatação da comunidade alienada em si mesma, como já trataram Adorno e Horkheimer, na elegantíssima Dialética do Esclarecimento.

Aqui fica evidente aquele preceito contratualista hobbesiano, pelo qual os homens voluntariamente se despojam da liberdade de julgamento sobre o bem e o mal, sobre o justo e o injusto, comprometendo-se a considerar bom e justo o que ordena o “soberano”. Mas quem é hoje, em termos sociais, o soberano Leviatã?

Fato é que em dias atuais não se pode ter mais conceito. É politicamente incorreto! Há obediência à opinião imposta, não porque esta é boa ou justa, frise-se, mas porque ela é imperativa. O indivíduo, nesse sentido, é a conjuminância daquilo que querem que ele seja. Exerce-se a liberdade virtual (aparente), por conseguinte, quando se está na maioria [que se manifesta], e esta maioria representa suas idéias.

E a “esquerda” protagoniza esse estupro do intelecto.

Sabe-se que o modelo educacional brasileiro vigente foi um projeto socialista. O método de Vygotsky foi o modelo de alfabetização responsável pelo surgimento dessa grande massa de analfabetos funcionais, necessários para a manutenção do status quo – da qual podemos extrair vultosos exemplos uspianos –, pois ensina a ler, mas não ensina a interpretar, nem, tampouco, a criticar o que foi lido.

Ora, se o indivíduo que lê um simples artigo é incapaz de tecer comentários críticos sobre o mesmo, também será inapto para fazer ressalvas ao que é propalado verbalmente, porque, logicamente, não tem argumento. Tira-se a capacidade da juventude de reagir ao que se está acontecendo.

Por que essa esquerda não questiona o teor dos argumentos contrários ao professado nos seus megafones, mas se foca na “fonte” destes argumentos, numa tentativa desesperada de viciar todo o discurso? Por que é tão freqüente o uso de sanções sociais (no sentido dado por Bobbio) para o pensamento adverso? Seria essa uma prova da evolução social como desenvolvimento da consciência moral, nos termos de Habermas?

É nesse contexto que observamos a curiosa dialética das opiniões sobre a PM. Ao afirmar “treme burguesia”, os manifestantes de ontem na Av. Paulista explicitam mais uma vez sua incapacidade crítica, sua inépcia intelectual. Do lado desses manifestantes, a polícia seria mais um instrumento da “burguesia” opressora, enquanto do lado dos moradores da Rocinha – ou seja, do povo –, um órgão apto para a manutenção da segurança.

Além disso, amigos, é cristalino que para se fazer uma manifestação às 16h de uma quinta-feira, de duas uma: ou o sujeito é patrão – e, portanto, dono do seu tempo –, ou não trabalha – seja porque não precisa, sejam por vicissitudes adversas (e, neste caso, convenhamos, seria melhor estar procurando emprego). Categórico é, contudo, que uma grande parcela desses manifestantes está inserida nessa segunda hipótese. Questiona-se: quem tem maior legitimidade para referenciar outrem de “burguesia” [como se fosse um grande mal ser burguês], os tais manifestantes ou aqueles moradores das favelas?

Outro exemplo jocoso está no recente artigo do Dep. Jean Wyllys (PSOL-RJ), publicado na CartaCapital, intitulado “O Começo de uma Teocracia no Brasil?“. O douto Deputado critica a PEC protocolada pelo seu colega Dep. João Campos, (PSDB-GO) que, grosso modo, pretende conceder legitimidade para as “associações religiosas” proporem ação de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade de leis ou atos normativos. Até aí tudo bem. Mas vejamos a linha argumentativa do eminente político: “O fundamentalista João Campos refere-se em sua PEC, malandramente, a ‘associações religiosas’. Porém, deve-se tomar essa expressão por ‘igrejas cristãs'”.

Não precisamos de muito esforço para saber que esse é um exemplo claro da existência do analfabetismo funcional no Brasil. É uma interpretação evidentemente absurda conceber “associações religiosas” como “igrejas cristãs”. Senão vejamos. A coisa mais óbvia do mundo é que, num raciocínio aritmético, qualquer “religião cristã” é um subgrupo de “religiões”. A teoria dos conjuntos faz este termo abranger aquele. Por analogia tão flagrante quanto primária, “associações religiosas” é um termo que necessariamente abrange “associações cristãs”, tanto quanto “associações muçulmanas”, “budistas” ou “evangélicas”; trata-se aqui, obviamente, de um problema entre gênero e espécies. A leviana construção do ilustre parlamentar é, por isso, absolutamente impossível, como impossível também qualquer interpretação diferente da (includente) terminologia agasalhada pelo PECGênero e espécie, “leia-se” jamais são igualáveis, como firmemente afirmaria uma criança de cinco anos, mesmo destituída de qualquer Ph. D. em Aristóteles.

Eis um exemplo pitoresco do tamanho do cadeado que, ao suprimir tanto a liberdade quanto a capacidade lógicas, aprisiona a consciência geral, tornando-a incapaz de conceber as constatações mais simples e indiscutíveis.

Atente-se, por fim, para a ressalva, demasiadamente relevante, que a idéia de ter conceitos formados não implica de modo algum que estes sejam absolutos ou inalterados. Ter opinião é exercer a atividade cognoscível que é peculiar dos seres pensantes. A liberdade, por essa ótica, é conquistada à medida que o indivíduo escolhe conscientemente o caminho que irá seguir, não obedecendo somente pelo casuístico de que o soberano ordena (ver Aurora, de Nietzsche).

 “O soberano dá suas ordens. O soberano é inquestionável. Logo, não se podem questionar suas ordens!” A construção silogística, mesmo que simplória, dá os fatos. Ou seja, da imbecilidade dos dominados, extrai-se a força da sociedade.  Do ópio vem o domínio. Afinal, sociedade boa é sociedade quieta. Obedeçamos!

 

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Comments
7 Responses to “O Ópio de Frankfurt e a USP”
  1. intelectual disse:

    lixo

  2. Marcio Torresin disse:

    Faltou ver o contexto político da declaração do deputado Jean Wyllys… Não se trata de equívoco de terminologia… ele quis denunciar o subterfúgio do dep. João Campos, que, obviamente, está tentando criar um mecanismo legal para aumentar o poder de sua facção religiosa.

    • Stato Ferino disse:

      Márcio, primeiramente muito obrigado por comentar sem fazer o uso de argumentos “ad hominem”. Nós sabemos do contexto político no qual ambos deputados estão inseridos. Prezamos pela fidelidade de nossas citações (deixo isso claro porque muita gente cita autores que não leram). Lembro, somente, que um deputado é um legislador. E na figura de legislador (que é com essa “persona” que o Jean Wyllys apresenta sua linha argumentativa), parte-se da necessidade de preciosismos terminológicos. Criticamos, portanto, não os fundamentos da revolta do deputado, mas seu “front” argumentativo, que evidentemente é bem pobre.

  3. Yan disse:

    Faltou dizer que vem justamente dessa política do analfabetismo a mardaça contra a imprensa no país. A liberdade de expressão é para a esquerda um obstáculo ideológico. Não há por que ouvir a dissidência, quando a verdade é uma só: a de que apenas um operariado, organizado em torno do partidão, deteria a chave da história. A natureza dessa filosofia é totalitária porque menospreza o contraditório. Todos os demais partidos, representantes das outras “classes”, estariam desautorizados de participar do poder – simplesmente por não seguirem a bíblia de Marx. Daí a inutilidade de um meio como a democracia para se conquistar um fim como o comunismo. No Brasil, tal ideário é nutrido pela agremiação castrista de José Dirceu. E tudo o que o governo do seu partido fez contra a livre manifestação foi programado assim. O proletariado só não seguiu adiante com sua ditadura, em 2005, porque uma revista denunciou o mensalão. A partir de então, todo o trabalho voltou-se para neutralizar a mídia. Há algo de errado quando o Estado cala, através do Poder Judiciário, um jornal de porte internacional. Pior ainda quando edita um programa de direitos humanos que prevê a regulação “social” dos meios de comunicação. Nos termos do Stato Ferino, a política do analfabetismo pode até ensinar “a ler, mas não ensina a interpretar, nem, tampouco, a criticar”. O grande irmão está de olho.

    • Stato Ferino disse:

      Bem acrescentado, Yan. Isso é evidente aqui bem próximo de nós, na Venezuela, Cuba, Bolívia… Todos parceiros da liderança petista. O duro é ter que conviver com essa “indústria cultural” brasileira, que faz a sociedade se alienar em torno de si mesma. Um exemplo desse ponto foi o próprio artigo do Olavo de Carvalho na Folha, repudiado por um número considerável dos tidos “intelectuais” brasileiros. Por causa desse único artigo (que criticava a postura esquerdista da própria Folha), o jornal recebeu diversas cartas de leitores o criticando (veja que a crítica não foi sobre o teor do artigo do Olavo) por ter publicado esse artigo. Alguns articulistas, eu soube, saíram da revista voluntariamente como sinal de protesto… A mentalidade revolucionária é boçal e joga com armas covardes. (http://www.olavodecarvalho.org/semana/111113fsp.html)

  4. É um artigo muito bem escrito, mas não consegui entender as aspas na palavra “esquerda”. Apenas gostaria de entender o intuito da colocação porque ela está dando margem a muitas interpretações. Parece sugerir que a orientação política é um agravante da estupidez.

    • Stato Ferino disse:

      Obrigado, Eduardo. Foi muito bom você ter tocado nesse ponto. A idéia da dicotomia esquerda x direita foi uma criação dos partidos instruídos pelo viés revolucionário. Tais conceitos vieram da posição espacial da Assembléia Geral francesa, na qual os jacobinos (radicais) se situavam à esquerda da Mesa e os girondinos (moderados) à direita. Pois bem. Essa concepção, no entanto, é muito grosseira, porque os revolucionários jogavam todos os indivíduos que divergissem deles para um mesmo time. Ou seja, quem não for da “esquerda” é sumariamente intitulado de “direita”. Com isso, podemos ver uma série de anomalias conceituais, senão vejamos: dentro da “direita”, de acordo com essa definição, estariam os nazistas [defensores de um estado totalitário] e liberais [defensores de um estado mínimo], grupos completamente distintos. É justamente por isso que o “politicamente correto” induz boa parcela da sociedade a rejeitar o direitismo e se auto-declarar “centro-esquerda”, afinal, quem quer estar no mesmo time de Hitler? Respondendo a sua pergunta: usamos as aspas para designar a concepção vulgar de esquerda. Até porque não acreditamos na existência de uma esquerda e de uma direita, num aspecto linear. O cenário político é muito mais complexo que a linearidade propugnada. Justamente por se tratar de um termo muito vago, optamos por nos manifestar em artigos mais recentes com o termo “mentalidade revolucionária”, pois achamos ser mais fiel e conciso. A resposta foi satisfatória? Abraços.

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