A USP, a Violência e o “Conceito de Democracia”: Máscara, Bandeira ou Ordem Política Substancial?

Anteontem (28/11/11), os sempre-grevistas da USP cometeram outro ato da mais descarada violência e do mais cristalino autoritarismo na FFLCH. Enquanto isso, no centro da cidade, o Largo de São Francisco foi mais uma vez brindado com o patrulhamento de professores da mesma Universidade (Marcos Orione, da Faculdade de Direito, de quem já falamos aqui, e Vladimir Safatle, da FFLCH); os docentes promoveram mais uma “Aula” Pública a favor das nobres causas dos sindicalófilos.

Dessa vez, numa e noutra frente, contudo, tudo foi longe demais.

Sobre o ocorrido na FFLCH. A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, num primeiro momento, não aderiu à greve da USP. Piquetes e constrangimentos de toda sorte foram os métodos utilizados pelos grevistas para o convencimento dos estudantes que preferiram a presença da PM na Cidade Universitária (bem como as salas de aula à bandalheira) à adesão à paralisação. O curso de Letras, todavia, manteve suas aulas e provas regularmente, na medida do possível, é claro; não aderiu, pois, primacialmente, ao movimento.

Eis que no dia de hoje, um dos “manifestantes” demonstrou o “conceito de democracia” (v. discurso de Marcos Orione, infra) da Chapa-Greve-Sempre: durante a aplicação de uma prova no Curso de Letras, em disciplina (Linguística II) ministrada pelo Professor Marcelo Barra, um estudante, inconformado com a não-adesão de seus colegas ao ócio em defesa do privilégio da Comunidade USP perante a Lei, invadiu a sala de aula, virou a mesa do professor e ameaçou-o fisicamente, “pegando-o pelo colarinho”, segundo relatos. Antes, os grevistas praticavam um “panelaço-apitaço” e, frente à sala, a fim de impedir a aplicação da avaliação pelo Professor M. Barra. Os estudantes que faziam a prova relataram que o grevista só não pôde agredir o docente devido à intervenção dos mesmos alunos, que controlaram o delinquente e empurraram-no para fora da sala de aula. Nada obstante, persistiu o panelaço. Segue notícia sobre o ocorrido: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5493339-EI6578,00.html. Segue vídeo do panelaço http://www.youtube.com/watch?v=BF96D5F_axk&feature=player_embedded e do momento da agressão, do exterior da sala de aula http://www.youtube.com/watch?v=pPE-XoMbkug&feature=player_embedded.

São de consciência de todos as facetas externas do tal movimento. Proclama-se ele “em defesa da Democracia”. É a bandeira que agita, entre piquetes, panelaços, constrangimentos e agressões físicas e morais. Eis as ferramentas ótimas dos “estudantes” opositores da reitoria e da presença da Polícia Militar no câmpus, a despeito do assassinato do feano no início do ano e de tantos outros crimes cometidos na Cidade Universitária: a violação sistemática de direitos constitucionalmente garantidos pelo Estado de Direito em que felizmente hoje vivemos, o desrespeito e a tentativa de aniquilação do núcleo sine qua non de qualquer ordem democrática, práticas concretizadas sob a confortável e fácil cada da mesma ordem.

Mas este é apenas o lado correndio da crise na USP. É a perspectiva que depende mais do comportamente e da vontade dos estudantes que das opiniões e estruturações (e justificações) teóricas dos docentes; trata-se do prisma de análise da crise, em outras palavras, que depende mais da massa de manobra que do arranjo intelectual por trás da mesma. Dos fatos, conclui-se que o campo cotidiano dos acontecimentos,evidentemente, encontra-se em situação já transcendente a todos os limites da moralidade, dos valores consagrados e do respeito às liberdades públicas, bem como do respeito pelo diálogo e pelos procedimentos plurívocos inerentes ao Estado de Direito – toda essa deturpação portando uma máscara vergonhosa em que se escreve a exatamente a defesa do que se procura destruir completamente.

O que mostraremos, agora a tratar do evento ido na Faculdade de Direito, é a existência insofismável de uma coadunação entres mentores intelectuais de tal violência contra a ordem Democrática e seus praticantes materiais. Provaremos, portanto, que a massa de manobra, oca quanto às razões e motivos da revolta, encontra lastro e escudo nas lideranças intelectuais da Universidade de São Paulo.

Sobre o ocorrido no Largo de São Francisco. Ontem, enquanto o delinquente grevista atacava o Professor Marcelo Barra na FFLCH, Marcus  Orione (FD) e Vladimir Safatle (FFLCH) lideravam “Aula” Pública intitulada: “Estruturas Antidemocráticas na USP”. A crítica dos docentes recaía, em suma, sobre o procedimento de escolha do reitor, sobre o qual falara mais cedo também o RockStar Paladínico da FD, Sérgio Salomão Shecaira. Tais professores crêem que o magistrado (no sentido antigo do termo) eleito diretamente pelos pagadores – muitos deles humildes, categoria essa, aliás, “humilde”, que os grevistas teimam em confundir com “bandidos”, ignorando que a enormidade da população carente é honesta, trabalhadora, digna e simpática à proteção policial do Estado – de ICMS do Estado de São Paulo (seu governador) não tem legitimidade para proferir a palavra final sobre a liderança da instituição por eles sustentada.

Essa, contudo, foi tese de somenor absurdidade se comparada às ulteriores.

Verbis, Marcos Orione, entre uma e outra regozijante citação de Karl Marx: “Por mais  que eu possa até me sentir incomodado por algumas atitudes dos alunos, eu fico muito feliz que eles tenham avacalhado as coisas; honestamente, se eles não tivessem avacalhado as coisas, ainda que de forma tempestiva, cacete… eles foram lá e, a despeito de uma assembléia [ah, mas isso não é democracia]. Tudo bem (!), mas que democracia? Esse não é meu conceito burguês de democracia. Então, quando eles desarranjaram, eu fiquei encantado”. Em seguida, Orione linca, numa mágica construção (i)lógica, seus opositores aos criminosos homofóbicos da Avenida Paulista, bem como aos pródomos hitleristas do Terceiro Reich – talvez, entre uma aula e outra de penal enforcada, o mestre se esqueça que sua alquimística construção argumentativa pode subsumir-se ao tipo penal “calúnia”. Mais uma vez, portanto (e sem surpresa alguma), a parte contrária é fascista, homofóbica, racista e odienta.

Um passo atrás. Sumaremos, em meio à confusão e à dificuldade retórica do professor, sua tese: os procedimentos democráticos foram respeitados, vencendo a maioria, como prescrevem seus ritos. Em seguida, o mesmo democrático procedimento foi desrespeitado pelos perdedores pontuais – leia-se, pela minoria contrária à Polícia Militar na USP. O princípio da prevalência da maioria, já preconizado por Locke em seu “Second Treatise Under Civil Government”, foi portanto atacado frontamente, com uso de violência física e moral.

Ante tal estado de coisas, qual a reação do estrato detentor da mentoria intelectual do movimento? A liderança (des)intelectual, pois, ficou “encantada”; muito feliz que,  “a despeito de uma assembléia”, “cacete”, “os alunos tenham avacalhado as coisas”. A justificativa, que vem logo a seguir da opinião, é tão simples quanto absurda: “Esse não é meu conceito de democracia”.

Sabemos muito bem disso. A regra da maioria, o diálogo e o respeito às decisões tomadas consentaneamente ao procedimento sufragiário nunca estiveram dentro do “conceito de democracia” que tal linhagem ideológica propugna. Tratamos aqui, caros, das mesmíssimas figuras, portadoras das mesmíssimas opiniões e valores daqueles que, também, jamais lutaram por uma democracia nos tempos do Regime Militar.

A democracia, para eles, é vazia de sua substância inseparável. É vazia, mantendo apenas seu nome; óbvio, assim, que democracia nem de longe se trata, e sim de apenas uma grande e útil bandeira que serve de camuflagem para o apreço pela violência e pelo autoritarismo, ademais comprovadamente praticados nos últimos meses, na USP, com obstinação sistemática.

Mas nada disso surpreende. A razão de tanta intolerância e cegueira, em boa parte produzida por bloqueio e bitolamento intelectuais, é claríssima: tais “militantes” e “intelectuais” simplesmente não entendem, e jamais entenderam o que é democracia, um conceito tão simples quanto o de “respeito” ou o de “tolerância”; mas, ao mesmo tempo, para alguns tão difícil de se praticar e de se conviver. Difícil demais, sabe-se, para os que tratam a população como uma massa infante a ser tutelada pelos detentores da Revelação, esquecendo-se da máxima de que todos aqueles capazes de obedecer são capazes de participar dos mandos. E é claro, ressalve-se, que os métodos da democracia brasileira não são perfeitos. Longe disso. Mas são, ao menos, métodos suficientes para a caracterização de um Estado de Direito e, cremos, melhores que os incontáveis atos de violência intelectual e física praticados ultimamente pelas correntes esquerdistas da Universidade de São Paulo.

Enfim, eis, amigos, como militância e magistério se entrelaçam. Eis como a terra toca o céu (ou o inferno) na USP.

Um aluno que, em defesa de privilégios legais, invade a sala de um professor que exerce seu direito ao trabalho e à liberdade de ir e vir, chutando e revirando sua mesa, antes de tentar agredi-lo fisicamente; dois professores que, por tortuosas e torturantes construções, embasam teoricamente (embora absurdamente mesmo em teoria) tais atitudes autoritárias, criminosas e gritantemente anti-democráticas – democracia que, para eles, prescinde (como sempre prescindiu) do respeito à dignidade, à liberdade e aos procedimentos democráticos. É como se prova que os instrumentos da violência (os estudantes baderneiros que se querem acima da Lei), na base, são legitimados por seus atiçadores intelectuais, no topo – ainda que vendado e bitolado topo.

É o circulo vicioso do qual padece a USP, um dos maiores redutos de idéias e práticas antidemocráticos no País. Mas, enfim, “tudo bem”, não é mesmo?

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Comments
4 Responses to “A USP, a Violência e o “Conceito de Democracia”: Máscara, Bandeira ou Ordem Política Substancial?”
  1. riccsilva disse:

    Rapaz, você tava lá no debate e não falou um pio? Haha, que piada.

    • Stato Ferino disse:

      Até onde eu sei, não estávamos num debate, mas numa “aula” pública. Se fosse debate, teriam convidado alguém para apresentar um pensamento adverso daquele lá explicitado. Além do mais, não temos o desejo sádico de nos tornar mártires, entrando para o número enorme de mortos por sistemas autoritários de esquerda. Se você quiser, podemos marcar um café e bater um papo – e chame um amigo para testemunhar. Mas tenho a leve impressão de que a grande maioria dos marxistas da SanFran não leram Marx (veja que, para se considerar marxista, pressupõe-se que o indivíduo coaduna com as idéias de Marx, e para concordar é, logicamente, necessário saber quais são tais idéias – e as únicas formas fiéis de se conhecer as idéias de um homem é o acompanhando diariamente ou lendo sua obra). Piada, meu caro, é esse tipo de comentário. Mostra apenas sua fragilidade argumentativa e limitação intelectual.

  2. riccsilva disse:

    Mártir? Você acha que o Orione ia levantar da cadeira pra te bater? Os “esquerdistas” da faculdade iam jogar pedras? Acorda pra vida rapaz. Que sistema autoritário de esquerda vai te perseguir?

    Que fragilidade argumentativa? Não argumentei nada meu querido, pra alguém tão “intelectualizado” você já devia saber diferenciar argumento de chacota.

    E sinceramente, ninguém merece adolescente que descobre Olavo de Carvalho e acha que pode sair por aí criticando Marx e a esquerda em geral por não ler Marx. Olavito leu um livro do Gramsci, que já é fraco, e fez uma interpretação esdrúxula – que só metido a intelectual que nunca tocou num clássico acha que serve pra alguma coisa.

    Na boa, nesses anos de debate na sanfran aprendi a diferenciar a direita intelectualizada da direita burra. Antes de sair fazendo blog e tentar debater democracia (aliás, quando você expõe sua própria concepção de democracia você se entrega e mostra completa ignorância de qualquer debate mais profundo sobre o tema), tenta conversar/debater com as pessoas ao redor (como, por exemplo, no debate que você não falou um pio) porque ainda tem muito o que aprender. Ser prolixo é muito diferente de ser inteligente.

    Boa sorte aí calouro. Tenta abandonar o Olavo e ir ler Weber que as pessoas te levarão mais a sério. Quanto ao café com “testemunha” (hahahaha) eu passo, tenho mais o que fazer. Suas idéias, hoje, pouco me interessam.

    Abraços.

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