O PSD de Maquiavel e do PT

Como Maquiavel, o PSD de Gilberto Kassab ventila a tese de que a boa práxis política está instrínseca e unicamente condicionada à feitura de alianças vantajosas e à criação (e adoção) de inimizades não menos profícuas – quaisquer que sejam suas colorações. De tal modo, o cheque em branco da política, restrita que seria esta à escolha dos meios ótimos para a aquisição do poder, funcionaria como um mágico título creditício, um direito à amoralidade absoluta que teria, ainda por cima, o condão milagroso de tornar imediatamente legítima até a mais torpe e cretina “ideologia do dia”.

Não à toa, por certo, a mais citada asserção de O Príncipe logrou fama perene na ciência política mundial. Maquiavel, discutindo desde os estratagemas da boa milícia até a boa execução de programas de engenharia social, sempre com uma grande erudição adquirida em meio a seu obstinado estudo dos clássicos, contudo, é um autor  frequentemente mal interpretado, nada obstante haja passado quase meio milênio de sua morte. Ocorre que a sábia crítica, sempre “especializada” em levar mais em conta os comentadores sucessivos que a própria vida do homem comentado, teima em ler nos escritos primários exclusivamente a roupagem que os glosadores deram às suas letras, em detrimento total da própria alma daquele que as pôs no papel, única fonte verdadeira de seu real sentido.

Dizendo da alma (entendida na acepção clássica, como conceito semelhante a uma mistura de inteligência e caráter) de Maquiavel, pode-se dizer que era tão brilhante quanto covarde; covardia, aliás, visivelmente refletida no falso e interesseiro desapreço propugnado pelo autor para com virtudes que ele próprio certamente amava – amor sem o qual seria impossível a grande dedicação por ele dispendida ao estudo e à busca da verdade em si. Amor que, afinal, faria com que o florentino se lamentasse para a aternidade se tomasse conhecimento do status bíblico-mandamental de fonte da perfeita arte política ao qual a posteridade boboca elevou uma pequena obra sua, motivada por um simples puxa-saquismo de gabinete.

Mas voltemos ao que buscamos demonstrar, e a como a medrosa idiotice do homem Maquiavel se relaciona com a política brasileira.

Ocorre que o espírito amarelão e enganosamente cético de nosso autor, com efeito, tem uma coloração muito próxima daquela do PSD de Kassab – bem como da suposta “oposição” nacional de modo geral. É que também este partido, nem lá nem cá (e nem no meio),  torna-se um caso paradigmático como prova do êxito inevitável do projeto esquerdista no Brasil: trata-se da primeira legenda de porte nacional a ignorar abertamente (e quase orgulhosamente) a validade de todo e qualquer princípio ou posição política material, desde a mais consolidada e secular virtude até a mais boboca moda da última semana.

Ao fim e ao cabo, resta claro que a cor de burro quando foge do PSD é símbolo estridente do maior câncer da política brasileira da atualidade: trata-se de um triste retrato do maquiaveliano e covarde dobrar absoluto de joelhos da direita frente ao projeto gramsciano petista no Brasil – derrota assumida e já esboçada não de hoje, em fatos como a vergonhosa conversão de figuras como Collor e Sarney, de opositores a aliados incondicionais do esquerdismo nacional em menos de uma década.

E não dizemos isso tudo sem provas. A ida inocente de Kassab à festa de aniversário do PT em Brasília, recentemente, foi uma demonstração cristalina – e constrangedora – da sucumbência ideológica completa do conservadorismo nacional, cada vez mais medroso e acuado, qual o enfim falido Maquiavel diante de Lorenzo. A clamorosa vaia da militância petista, combinada com o êxtase generalizado quando da subida do líder de quadrilha José Dirceu ao palanque, quis dizer algo tão simples quanto aterrador: “vocês, chapas-brancas da política, da academia e da imprensa nacional, são nossas putas; se não são de direita nem de esquerda, pouco importa; mas se mesmo assim quiserem um carguinho, ao menos para um lado (o nosso) vão ter que trabalhar”.

Cumpre dizer, ainda, que a escrita primorosa e a cultura avassaladora de Maquiavel, de fato, produziram sua fama, de resto plenamente justa. Tal fama, de sua parte, produziu aberrações, sintetizadas numa cultura de desprezo pela coragem e pela temperança política, combinada com o simultâneo louvor à mais satânica covardia, num amálgama chamado de “pragmático” e elevado pela posteridade do autor a um pedestal de genialidade política. Genialidade estúpida e suicida que partidos como PSD e PMDB tomam por Primeiro Mandamento.

Por fim, sobre a posteridade de Maquiavel, se esqueceu esta completamente de que o autor, “mestre” da política que era, morreu à míngua em meio a sua própria arte; à míngua como, aliás, costumam morrer os covardes – um destino ao qual apenas o PT parece não estar irretratavelmente condenado na política brasileira.

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