Gregos, Romanos ou Animais?

Em “Declínio e Queda do Império Romano”, Edward Gibbon nos conta que, mesmo sob o jugo da púrpura latina, os helênicos  mantinham grande orgulho da riqueza de sua língua materna, espelho mais fiel da superioridade e do brilho de sua inteira cultura. O latim peninsular, tido pelos gregos por nada mais que o tosco idioma do oficialato, era então o sinal inconteste da rarefação intelectual daqueles “bárbaros” que, nada obstante a obtusidade, governaram gregos e troianos por séculos com mãos de ferro.

Ruído há um milênio e meio o “Império do Mundo”, é todavia fora de dúvidas que os limites da linguagem continuam a cimentar a mesmíssima barreira que circunscreve a própria inteligência humana. Assim sendo, o que vemos atualmente é uma humanidade que padece com o esfacelamento agoniante e sufocado de sua própria identidade. O homem atual, cada vez mais amordaçado pela doutrina “politicamente correta” (v. links abaixo), resta privado do exercício pleno de sua vocação comunicativa. De tal sorte, estreitam-se fatalmente e em idêntica medida as fronteiras de sua própria inteligência, diferença específica, afinal, do mesmo gênero humano. Nasce, de tal doença tão silenciosa quanto epidêmica, o glorioso homem pós-moderno: um ser cada vez menos grego e mais romano, incapaz de farejar em si mesmo a podridão de uma moléstia que o golpeia de morte a própria essência.

A esse respeito, convém agora destacar dois recentes absurdos, provas ilustrativas e suficientes desse triste diagnóstico.

O principal e talvez mais monstruoso deles constituiu-se na tentativa, por parte do Ministério Público Federal, de tirar de circulação o Dicionário Houaiss, provavelmente o principal produto do gênero no mercado brasileiro (veja aqui ). O pêlo encontrado na casca do ovo, dessa vez, foi a vinculação de termos “ofensivos” pelo Dicionário ao verbete “cigano”. O vocábulo é ali definido, inter alia, como “aquele que trapaceia”, “velhaco”, etc. É importante lembrar que Houaiss explicita previamente tratarem-se estas de conotações pejorativas dadas ao termo; nada obstante tal aviso (aliás desnecessário), o MPF requereu a censura do Dicionário em seu inteiro teor, acusando-o de “racismo” contra a “nação cigana”.

Primeiramente, é mais que óbvio que as Excelências se esqueceram de que foi a sabedoria popular, calcada na realidade dos fatos, o instrumento cimentador das acepções dadas por Houaiss ao verbete no seio da linguagem comum. Mais evidente e preocupante ainda, porém, é a constatação que dos fatos se extrai: no atual estado de coisas, uma (supostíssima) violação da honra de uma minoria é incomensuravelmente mais importante que o respeito à própria Verdade. Eis que o Estado, dono da “consciência crítica”, enxerido e onisciente como Ele só, trata de perseguir até o último suspiro qualquer delinquente que ouse proferi-la.

Esperamos, para que ao menos mantenha-se alguma rebarba de isonomia e coerência, que brevemente sejam também censurados os vocábulos “judiar” e “denegrir”, não apenas do Houaiss ou de todos os dicionários, mas da própria linguagem de modo geral. Fica aqui nossa sincera denúncia, afinal racismo contra judeus e contra negros é tão grave quanto racismo contra ciganos.

À parte a ironia, temos outra prova do analfabetismo funcional criado pela mentalidade “politicamente correta”. Trata-se da interpretação inteiramente absurda atribuída por alguns veículos de imprensa a certas declarações do Pastor Silas Malafaia (veja aqui). Criticando ofensas diretas e obstinadamente loquazes feitas por integrantes da Parada Gay contra símbolos religiosos católicos, Malafaia insurgiu-se contra a inércia da Igreja de Roma, calada que se manteve diante dos ultrajes. O Pastor, assim, recomendou que o clero “caísse de pau” sobre tais atitudes, ademais ostensivamente desrespeitosas. Diante de tal conselho, a grande mídia, qual uma criança de seis anos, ainda incapaz de discernir discurso de sentença, viu-se estarrecida diante das “incitações à violência” e da apologia às “agreções físicas” propugnadas pelo Pastor, como se não fosse óbvio que a expressão por ele utilizada não passa de um equivalente popularesco para “criticar”, “emular” ou “combater”.

De qualquer modo, fato é que sucumbe  mais um conceito  intelectivo, cujo acesso veda-se completamente ao saber humano. Proibe-se seu uso a todos e em qualquer hipótese, ainda que proferido por um padre diante de arruaceiros que usem imagens religiosas como objetos de lascívia, ou por um pastor que se depare com jovens vestindo o Cristo de mini-saia preta durante um culto de Sexta-Feira Santa.

Desse ínterim, extraímos a imagem geral aqui denunciada: ressoa cada vez mais próxima a morte do conceito mesmo de homem como ser pensante e, por definição, em paz com a realidade substancial e objetiva que lhe salta aos olhos. Assim é que, desde antes da virada do Século até o presente minuto, o homem se torna cada vez mais incapaz de absorver e acatar a simples complexidade do real: vê-se, dia após dia, numa marcha obstinada de arrogância e infidelidade contra sua própria consciência, ora impedida por si mesma de aceitar as mais evidentes premissas, bem como de, a partir destas, deixar-se guiar até as mais  óbvias e inevitáveis consequencias intelectivas.

Afinal, se a semiótica oficial impede o mais talentoso escritor ou o mais decadente bêbado de bar de dizer que um certo malandro “é pior que um cigano”, ou que fulano “cai de pau em todo mundo pelas costas”, esse homem não é mais um homem, já tão longe de gregos e romanos que se encontra. Poeta ou alcoólatra que for, trata-se já, na melhor das hipóteses, de um feliz cão bípede que abana o rabo diante das mentiras que é obrigado a ladrar (ou das verdades que é forçado a omitir) em troca de um agrado ou, mais modestamente, de uma vida livre de retaliações irracionais e repletas, elas sim, do mais imundo dos ódios: aquele que se insurge propositalmente contra a própria Verdade.

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