Era uma Aula Muito Engraçada (ou Platão, um Marxista Convicto)

Fôssemos poetas e parodiaríamos em verso, do início ao fim, a conhecida canção de criança. Por falta de talento destes autores e por falta de merecimento do objeto, todavia, segue mesmo em prosa o inacreditável jaez de uma das aulas inaugurais que tivemos a infelicidade de prestigiar, a primeira de nosso curso de Filosofia do Direito na Faculdade do Largo de São Francisco.

Pois bem. Na apresentação de um tema, venha ele a ser tratado numa mesa de bar ou num curso superior, convém seguir algumas regras.

Como preliminar devida em qualquer estudo, é certo que a abordagem intelectiva de seu objeto deve partir da compreensão de seus rudimentos, introdução imprescindível ao posterior trabalho das filigranas e sutilezas. nele presentes De tal modo, nosso professor de Filosofia propôs, em respeito a essa lógica, a identificação prévia do próprio campo sobre o qual nos debruçaríamos durante o curso. É sabido também que procede-se a tal introdução, quer nas ciências do espírito quer nas demais, através da diferenciação de seus componentes basilares em suas mesmas etimologias, de resto irredutíveis entre si. Tal seria o caso, também, dos esforços acerca da “Filosofia do Direito”.

Tudo ia bem em nossa aula, como visto. Tudo em paz, até que a mera explicação metodológica, até então razoável, deu lugar à perscrutação do objeto em si, momento a partir do qual vimo-nos tão perplexos quanto conformados com o fim de algo tão bom (para os padrões uspianos) que não poderia mesmo durar.

Acontece que ao analisar separadamente os conceitos basilares de nossa disciplina, qual sejam, “Filosofia” e “Direito”,  nosso mestre atingiu duas conclusões tão idênticas quanto embasbacantes: e assim revelou-nos, com ares de detentor de ímpar e inalcançável astúcia, que tanto um quanto outro conceito não passam de perfeitas transparências: cheques em branco nas mãos da História e reféns da “ideologia do dia,” meros recipientes desprovidos de qualquer essência seguramente tangível pelo intelecto humano. Afinal, arguiu o professor, “como Montaigne foi em seu tempo ridicularizado, também Paulo Coelho pode adquirir peso filosófico com o passar das décadas”. Em suma, a Filosofia, bem como o Direito, seriam conceitos (?) indefiníveis,  apreensíveis na melhor das hipóteses como simples “métodos historicamente situados”, também eles, ademais, completamente manipuláveis e órfãos de quaisquer conteúdos instrínsecos minimanente palpáveis.

O mais surpreendente, entretanto, ainda estava por vir. Fixados os vácuos conteudísticos dos dois componentes de nossa disciplina, o professor empreendeu o natural passo seguinte de sua mesma delineação: era hora de “unir os dois conceitos”, a fim de revelar a nós alunos, enfim, as estruturas basilares daquilo que pescrutaríamos durante todo o semestre letivo.

Nesse momento, confessamos, vimos nascer em nossas frágeis e insensíveis mentes uma perplexidade irretorquível: afinal, pareceu-nos óbvio que, se é certo que a união de dois objetos distintos pode criar um amálgama diferente da simples soma dos mesmos, é igualmente fora de dúvidas que o resultado da união de dois “nadas” (tão vazios quanto Filosofia e Direito) não pode gozar de tal poder de variabilidade: o produto de tal operação, prática ou somente intelectiva que seja, só pode ser um outro vazio, tão inapreensível quanto aqueles que o antecederam.

Mas ainda não foi tudo.

Tais absurdidades (até então percebidas apenas pelos alunos mais atentos à aula e sobreviventes do genocídio cognoscivo empreendido pela lavagem cerebral gramsciana), no entanto, deram lugar a colocações ainda mais impressionantes e criativas, formuladas por nosso mestre quando da explicação de “A República”, de Platão.

Segundo nosso professor, por definição dotado de maior cultura filosófica e capacidade retórica que seus jovens interlocutores e (mais importante) protegido pelos concursos públicos pelos quais adquiriu automaticamente o status de “filósofo”, Platão foi, em suma, “o primeiro comunista do mundo”.

De fato, na referida obra, o pensador grego acentua a totalidade da pólis como valor maior a ser buscado por seus cidadãos. Propondo a Trasímaco, Glauco e Adimanto medidas tais como a “seleção”, em igualdade de condições, dos governantes do Estado, bem como o empreendimento da criação coletiva dos filhos, Platão hipotetizava uma república em que o ideal do Justo alcançasse máxima realização.

Talentoso e criativo, eis que nosso mestre procedeu a curiosas interpretações acerca da obra. Segundo o professor, Platão, por considerar vantajosa a criação coletiva das crianças atenienses, considerava a família uma instituição “absurda”; e, defendendo a identificação, em igualdade de condições materiais, do mais sábio dos homens como líder da república, teria sido um sério e firme defensor do estado de coisas sonhado pelo moderno comunismo internacional (produtor paradoxal, por sua vez, de um pesadelo muito real em que já perambulam mais de 100 milhões de defuntos).

Esqueceu-se o mestre, entretanto, de pronunciar alguns detalhes pertinentes à obra, bem como de elucidar a seus alunos o próprio teor fundamental de “A República” como um todo. Empenhado em pintar o filósofo como mais um esquerdista libertino constante das fileiras do “politicamente correto”, esqueceu-se o docente, por exemplo, da sutileza de que a hipótese platônica da estratificação meritocrática da sociedade incluía a tirania sobre os membros das castas superiores, que apenas entre si poderiam se repruduzir e relacionar. Olvidou, por fim, fundamental compreensão: ocorre que “A República” é um livro de natureza especulativa, em que o Autor desenvolve diálogos desinteressados – e em hipótese alguma sérios, dogmáticos ou prescritivos – acerca de um Estado imaginário e reconhecidamente impossível pelo próprio ateniense.

Nada obstante, mirando os confins da sala de aulas durante a exposição, restou claro que nosso mestre atingiu seu objetivo. Vários olhos brilhantes e cabeças ocas que jamais leram ou raciocinaram qualquer página de “A República” puderam então solidificar ainda mais o amor juvenil que arde pela “Justiça Vermelha”, ora lastreada na doutrina séria e rigorosa do maior filósofo da história humana. Presas fáceis, enfim, que acostumam-se cada vez mais a deglutir informações inexistentes e a identificar tratados monumentais de luta política nas entrelinhas inventadas de frases simples e inocentes. Aprendem, enfim, a dar mais valor às idéias que aos próprios homens que as proferem.

Entre um e outro deboche afetado contra pensadores cristãos, e entre uma e outra frase como “matar bolivianos é coisa de reacionário”, ao menos algo restou claro em meio à parafernália niilista construída em nossa aula. É que resulta cristalina, afinal, a constituição intelectual de nosso mestre, profundamente impregnada pelo descunstrucionismo filosófico e por um reducionismo obstinado proveniente do mais rasteiro e infantil marxismo.

Devemos admitir, contudo, que aqui não há qualquer surpresa. Afinal, a profissão agressiva do mantra revolucionário, apoiado em um esquema tosco que tem o condão de substituir a própria complexidade do real, acompanhada da negação obstinada da própria tangibilidade deste, constituíram as estruturas fundandes do stablishment uspiano desde seu nascimento – fundações estas que se revelam cada vez mais hegemônicas e irreversivelmente danosas.

É, aliás, curioso que a negação da apreensibilidade do real, por sua vez, seja veementemente advogada justo por aqueles que se proclamam “filósofos”, por definição figuras que dedicariam a vida ao alcance  profundo da verdade. No atual estado de coisas, entretanto, parece-se optar pela destruição total dessa própria postura, talvez inconveniente por permitir a realização de tarefas psíquicas elementares como a diferenciação de um homem em relação a uma espiga de milho, ou o discernimento entre um amante sincero da sabedoria e um funcionário público pago para ventilar propaganda partidária e criar uma “elite intelectual” incapaz de aceitar que dois mais dois somam quatro.

É isso, entretanto, sem sombra de dúvidas o que se dá nas cadeiras de nossas universidades.

De nossa parte, pensamos que o própio Platão talvez seja ligeiramente mais apto a expor suas próprias opiniões do que aqueles que, mil e quinhentos anos depois, tomam de assalto e ferem de morte seus ensinamentos. Assim é que tomamos a literalidade de suas palavras antes de tomar por verdades incontestes quaisquer interpretações mirabolantes operadas sobre as mesmas. Cremos, por isso, que “A Ciência e a Verdade, assim também, devem ser consideradas muito afins ao Bem, ainda que nem uma nem outra sejam idênticas a ele” (“A República”, PLATÃO; Ed. Escala, 2003, pg. 221, Parte II). Cremos, enfim, a despeito das prendas e putas de Heidegger, que não há só “discurso” ou “historicidade”, mas sim realidade substancial.

E aqui, graças a Deus e para o bem dessa  mesma Verdade, acaba a aula.

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Comments
One Response to “Era uma Aula Muito Engraçada (ou Platão, um Marxista Convicto)”
  1. Victor Alves Torres disse:

    Não se pode ignorar que a inexistência de realidade chegou às mentes atuais. Hoje não vive-se através do que existe, mas sim de ideias que são transmitidas e passivamente aceitas dos conhecedores (ou manipuladores do conhecimento) aos que se recusam a buscar o conhecimento por forças próprias. Se já não impossível, a tarefa de trazer uma ‘Instauratio magna’ nas preguiçosas cabeças cheias de escolastismo seria, no mínimo, frustante, já que não depende da simples aceitação das mesmas, mas da compreensão de que a verdade não deve ser ensinada, mas procurada e discutida. Para se chegar à esse ponto de entendimento, teria-se que passar pelo obstáculo quase intransponível da inércia de pensamento, que é sustentada pela simples, mas poderosa máxima do pão e circo. A crítica é um começo, mas se deseja-se que a realidade do imaginário popular mude deve-se trazer, através da própria ilusão do mundo ideal, seus membros, para o mundo real, assim como no mito da caverna, que acredito que vosso mestre acabará também por se utilizar para injetar mais marxismo na sala.

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