Tocqueville, a Bananeira e o C4 Pallas

No Capítulo I de “A Democracia na América”, Alexis de Tocqueville relata os contrastantes aspectos naturais das Américas Saxônica e Ibérica.

Conta-nos o francês que o “ambiente hostil”, “árido” e “difícil” do país dos Founding Fathers teria estimulado a laboriosodade de seu povo, perfazendo uma das causas de sua futura hegemonia econômica, qual servindo de estímulo a sua genialidade institucional democrática.

O Cone-Sul, de sua parte, brindaria o homem com um “não sei que espírito debilitador, que convida a amar o presente como este se encontra, tanto quanto à completa despreocupação para com o futuro.”

No Capítulo II da mesma obra, nosso autor colore o caráter basilar do cidadão norte-americano, fundado na tradição cristã e no ânimo associativo. Nascia, sobre esses dois pilares, a espinha dorsal da América, seu ímpeto comunitário mesmo, donde cada qual entranhava em si o dever irrefragável de tomar partido dos problemas alheios, quer coletivos, familiares ou particulares, sempre no sentido de restabelecer a boa-vida em sociedade. De um tal “solving problems spirit” até a formação da democracia em sua mais perfeita forma e à pujança econômica, foram alguns pequenos passos, consequências naturais do que anteviera.

Daqui, pode-se dizer que além de elegantíssimo escritor, Tocqueville foi também (e certamente) um cientista.  Revelaram-se, pois, certeiras suas previsões. Mais ainda seus diagnósticos.  Afinal, o resto dessa história todos conhecemos mais que bem. Enquanto os americanos, de lá àqui, cimentaram sua hegemonia em todos os campos possíveis e imagináveis, preferimos jazer deitados em nossa tão querida rede, à sombra da bananeira, enquanto passamos a perna em putas e em padres, em fazendeiros e em mendigos, excitadíssimos diante da mais ínfima chance de gozar de qualquer vantagem gratuita que seja – venha ela do Céu, do bolso alheio ou, mais modernamente, do Partido (aliás, nada mais que uma síntese das duas primeiras fontes).

Medularmente latino-americano, o movimento estudantil brasileiro não nega suas matizes sequer por um instante. Entre nós, os partidos políticos acadêmicos da Universidade de São Paulo demonstram com ímpar fidelidade  o quanto até aqui foi dito. Por certo que trazem em seu sangue, talvez até mais visivelmente do que gostariam, o velho DNA do caudilho/sindicalista que, enriquecendo a si mesmo e aos “amicus amicorum” à custa dos pobres, arroga-se o mais fiel escudeiro deles.

O resultado disso tudo, entre nós uspianos (e franciscanos, especificamente),  é a iteração incansável daquele mesmíssimo mantra, tão convincente quanto vazio de sentido, tão ambicioso quanto estéril de propostas concretas para a efetiva solução de problemas. Discurso esse que se arrota, é claro, até que o papai ligue avisando que é chegada a hora de abandonar a Sierra Maestra em seu C4 Pallas zero-km – ressalvada, é claro, vindoura mordiscada no “Fundo Partidário”, contraprestação mais que devida aos titulares da carteirinha do Partido, que tantos benefícios já trouxeram a seus pares com suas palavras de amor e com suas notinhas e manifestos de ódio.

Na São Francisco, beira o obsceno o valor que nossos proto-políticos conferem aos sacrossantos discursos,  bem como insulta a própria inteligência humana o descaso a que se permitem quanto à propositura e/ou à tomada de medidas concretas para a solução de problemas os mais gritantes. Alguns exemplos dão cabo de demonstrar tal postura.

Alguns dos últimos grandes empreendimentos e posturas adotados pelo movimento estudantil franciscano foram os seguintes: i) a promoção e manutenção da expedição de um título de “persona non grata” ao reitor da Universidade de São Paulo; ii) a retirada de plaquinhas que davam nome a algumas das salas da Faculdade, homenagens prestadas pelo então diretor (atual reitor) a doadores milionários cujas contribuições viabilizaram a reforma de diversos cômodos da Academia. iii) a masturbação heterônoma prestada a organizações crimin… (ops) “movimentos sociais” vinculados a  quadrilh… (ops) partidos políticos que remetem verbas para as agremiações acadêmicas da Faculdade de Direito. iv) a denúncia obstinada da situação da população de rua do centro da cidade0 – pela qual, digne-se o leitor, as entidades religiosas que  ali distribuem seu sopão fazem mais em uma noite do que nossos pós-púberes e políticos profissionais suas vidas inteiras.

Enquanto isso, algumas situações chamam a atenção no dia-a-dia da Faculdade: i) há três anos (desde que estes autores ingressaram na Academia) os elevadores do Prédio Histórico não funcionam ou, quando muito, mal-funcionam; ii) o regime das disciplinas disponíveis, bem como a formação das cargas horárias necessárias à conclusão do curso encontram-se em estado verdadeiramente caótico e lamentável; iii) o volume de livros depositados (e este é o termo correto) nas bibliotecas departamentais é esmagadoramente maior que aquele disponibilizado para retirada na Circulante – um absurdo que, inexplicavelmente, restringe pesadamente o acesso dos discentes ao material da Faculdade. iv) há professores menos vistos pelas Arcadas que cometas de periodicidade centenária – para não adentrarmos no tema da qualidade de suas aulas, quando hão.

Pois bem. É claro que acerca deste últimos quatro problemas concretos, nada foi feito. Alguns cartazinhos foram apregoados em sinal de indignação face às questões das grades-horárias e da assiduidade dos docentes e… foi só. Postura inerte, contudo, mais que compreensível. Nossos militantes estavam muito ocupados com seus megafones, com a multiplicação da rede de contatos na UNE e na Juventude Petista e (mais importante) com o aumento das probabilidades de nomeação futura para algum Ministério da Pesca ou Secretaria da Cultura que seja.

Afinal, que história é essa de elevadores? De livros? De grade-Horária? De professores? E para quê, esquentar a cabeça se estamos muito bem apenas com a oração diária de nosso já tetárgico ‘Fora Rodas’? Mas e quanto ao futuro? Bem, este a Deus pertence (se é que ainda se permite o uso do vocábulo que a Ele designa).

Infelizmente, qualquer subsunção às palavras de Tocqueville passa muito, muito longe de mero acaso. Tentando enveredar para algum lugar que não seja a rede nem a bananeira que nosso autor denuncia, nos despedimos de novo – sempre subindo escadas, desprovidos de elevadores, e sempre metendo a sola na rua, menos providos ainda da confortável motorização que se presta ao Movimento, grão de areia entre as tantas vantagens vindas, miraculsamente, com a filiação às mais altas cúpulas de ladrões, corruptos e vigaristas de nosso País.

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