Nada de Novo no País das Jaboticabas

As eleições municipais e o julgamento do Mensalão são tratados conforme o roteiro, de há muito posto goela abaixo de tudo e de todos.

E seguem-no à risca tanto o povo quanto a grande imprensa. Por parte do povo, ambos os temas são vistos com a costumeira miopia, agravada pelo horizonte cada vez mais curto que o olhar alcança, fruto da inanição cultural sem precedentes em que vive. Já a mídia, não de hoje amarrada desde dentro, maneja ambos os acontecimentos com o cinismo de costume.

Mesmo assim, continua sendo verdade que não é por já serem esperadas que essas tratativas se revelam menos absurdas quando cotejadas com as realidades substantivas às quais se referem. Ou, melhor dizendo, com as realidades às quais elas deveriam se referir.

O julgamento do Mensalão vem sendo celebrado por ambos, povo e mídia. O primeiro, incauto, trata os réus como bandidos unicamente interessados na obtenção de vantagens pessoais. De sua parte, a mídia cuida de estimular e ao mesmo tempo corroborar sem restrições esse sentimento. É por essa conjuminância de beneplácitos (aparentemente pejorativos) que os mensaleiros são elevados à excelsa condição de meros gatunos do colarinho branco. E nada além disso. Afinal de contas, para o homem do povo, trabalhador e de bem como o Gilliat de Victor Hugo, a punição de uma quadrilha é sempre digna de aplausos, seja essa quadrilha de que quilate for.

Ocupando as duas pontas que extremam esse estado de espírito descrito estão as únicas parcelas da sociedade que parecem compreender a efetiva substância do esquema de corrupção sub judice.

São elas, de  um lado, a já não pequena cúpula esquerdista pensante, e, de outro, a incomparavelmente menor parte da gente que conhece e teme seus reais objetivos. Numa das pontas, portanto, está essa esquerda, mais que estruturada e consciente, sinceramente satisfeita com o saldo final do julgamento do escândalo. Na outra, os que não ignoram suas entranhas, decepcionados em solilóquio com o desfecho do caso.

É curioso notar que a razão desse excepcional contentamento da elite esquerdista é a mesma que incute o desapontamento da”direita” (se é que tal coisa de fato existe no Brasil, quer em termos de quantidade quanto de qualidade). E essa razão é precisamente o seguinte fato, de resto já constatado: tratam-se dos dois únicos grupos que compreendem (incluindo-se na extremidade esquerda a parte maciça da mídia que compreende, mas finge não compreender) o escopo efetivo do esquema.

A respeito, surge a pergunta fundamental: o Mensalão não passou de uma rede de “estelionatos” coordenados, rede essa dotada de uma finalidade simples, até frugal, e exclusiva, qual seja, a de encher o bolso seus agentes individuais? Ou será que a roubalheira não passou de mais um instrumento a serviço do domínio absoluto do estado, menina dos olhos desde sempre do Partido dos Trabalhadores? Qual desses, afinal, o objetivo nuclear da quadrilha?

Alguns argumentos invencíveis apontam para a segunda opção. Argumentos esses que são tão esquecidos pelo povo quanto camuflados pela grande imprensa.

O primeiro deles é especialmente gritante, mas nem por isso menos alijado do debate público: a compra de votos parlamentares constituiu o objeto central de ilicitude da trama. Essa é a face do esquema que, de per si, deveria arrepiar a própria República desde seu âmago. Não obstante, a verdade é que é a vantagem pessoal eventualmente percebida por uns e por outros dos crimonosos que vem recebendo a totalidade dos holofotes da opinião pública, em detrimento da própria compra do Poder Legislativo pelo Executivo petista, essa sim a finalidade específica do esquema desde seu nascimento.

O segundo argumento afirma o primeiro até não mais poder. Trata-se do fato de que gente como os Srs. José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares (entre outros tantos) simplesmente caçoam de qulaquer dinheiro que seja. Gente como essa prescinde de um arranjo monumental de estratagemas de tal natureza para obter qualquer dádiva econômica possível e imaginável. Trata-se, no mais e no fundo, da velha e singela questão: quem precisa de dinheiro no bolso quando já o tem repleto de homens?

É por conta do esquecimento solene dessas verdades, contudo, que de envenenadores do próprio estado os mensaleiros se elevaram à sublime condição de simples gaiatos, cujo único diferencial parece ser, aos olhos do povo, a influência  incomum de que gozam, mero elemento de facilitação do próprio enriquecimento.

Como dito, eis aí a razão fundante do alívio e da decepção de cada qual dos extremos do eixo.

De sua banda, a turma do Foro de São Paulo, ciente de que o Mensalão nada mais foi do que outra engrenagem componente da gigantesca máquina montada para que o Partido cumpra seu destino, qual seja, o engolimento da própria República, toma por diminuto o prejuízo político decorrente do desvelo do esquema, já que ainda escusa sua real e ilimitadamente gananciosa finalidade. De sua parte, o menos que exíguo grupo de contrários, que sabe da mesmíssima coisa, lamenta a perda de uma oportunidade de desmascarar de vez essa gente.

De pano para manga, mas nem tanto, as eleições municipais, especificamente no caso de São Paulo, apenas confirmam a perfeita ignorância e a camuflagem deliberada que foram denunciadas acima. Por essas bandas, a prefeitura da maior cidade do País caiu no colo do petistíssimo Fernando Haddad, homem formado no caldo de cultura marxista da USP, além de pupilo deliberado dos chefes da quadrilha mensaleira. Isso em pleno julgamento da Ação Penal 470.

Quanto a isso, só resta concluir de uma entre as duas: há alguma prova mais inequívoca de que a opinião popular não atribuiu ao Partido dos Trabalhadores, enquanto instituição, a mínima responsabilidade pelos crimes ali julgados? Ou será que a mesma opinião popular simplesmente já apóia o domínio total do Partido sobre tudo e sobre todos?

E enfim, a perplexidade: qual das duas alternativas é a pior?

Mais. Outro exemplo formidável de absurdidade, embora igualmente esperada, é a aliança do ora ex-candidato Gabriel Chalita com o futuro prefeito. Chalita, bem se sabe, é homem de estreita conexão com setores de peso da Igreja Católica. E apesar disso emprega todas as suas forças para eleger o representante do Partido, que vê na tradição cristã um de seus inimigos mortais. Inimigo, de resto, cujo combate vem também sendo cada vez menos tormentoso, dada a corrupção interna da própria Igreja, cuja feição atual não escapa à do restante das instituições do País.

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